quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Sobre o tal ''polêmico'' gol de Barcos


O lance da rodada (e do campeonato, arriscaria eu) saiu do duelo entre Internacional e Palmeiras, sábado no Beira-Rio. Após cruzamento proveniente de um escanteio, Barcos, acintosamente com o braço, manda a bola para o fundo do gol. Imediatamente após o lance, os jogadores do Internacional correram ao árbitro  Francisco Carlos do Nascimento para protestar, enquanto ele (e o assistente Evandro Tiago Bender), alheio à reclamação, valida o gol. É só após alguns minutos de veemente reclamação colorada e após uma conversa via rádio com o 4º árbitro que o juiz volta atrás e anula o gol - porém sem dar cartão amarelo ao atacante palmeirense. ''Coincidentemente'', a anulação do gol se deu logo após a TV exibir o replay detalhadamente.

Após a partida, o Palmeiras entrou com um pedido na justiça requerendo a anulação do jogo. Paradoxal ou não, o clube tem esse direito. Nenhum elemento externo pode influenciar a decisão dos 4 ou 6 árbitros. Não se poder valer de uma contravenção para evitar outra. Dessa maneira, os pontos do jogo estão impugnados até que se tome a decisão, em um julgamento a ser realizado no dia 8 de novembro .

O debate preferencial levantado por comentaristas, jornalistas, torcedores e palpiteiros de plantão após o lance é o do uso de recursos externos, como o auxílio de imagens das televisões. Bem, é um debate válido, mas, nesse caso em específico, não deveria ser levado à pauta pelo motivo óbvio de ofuscar um bem mais relevante nesse atual momento: o da ruindade da arbitragem nacional. Se a FIFA postergou o que  postergou até aceitar pôr um chip na bola (como teste, no Mundial de Clubes desse ano), não vai ser em um instante que legalizará um recurso bem mais decisivo e potente, que pode até mexer no fluxo da partida dependendo de como for aplicado. Sendo assim, esse é um debate contínuo, que apresenta real relevância apenas em um futuro longínquo. Hoje levar tal debate ao centro das discussões é colocar o juiz da peleja Francisco Carlos do Nascimento e o assistente Evandro Tiago Bender como parte das vítimas da birra da FIFA em não utilizar recursos eletrônicos. O lance foi um dos mais claros da história do futebol. Clamar à recusa da FIFA em tal caso é dar um atestado de ''vítima dos limites humanos'' a quem errou grotescamente e é o principal vilão do caso. O grande debate a se fazer hoje é o de remodelação de um quadro de arbitragem fraco e incompetente, que muda o destino de partidas e campeonatos graças a sua baixa eficiência. É um debate bem mais prático, acessível e o que se mostra mais necessário no momento. Outro ponto que o lance pode trazer à tona é a gravação do rádio comunicador dos árbitros, o que já ocorre por exemplo na Inglaterra. São assuntos mais práticos e mais necessários atualmente.



Que o jogo não vai ser invalidado, disso tenho total certeza. Basta um dos árbitros dizer que o 4ª árbitro foi quem atentou para a irregularidade e, pronto, não há como provar o contrário. Ao Palmeiras restará o choro. E às pessoas que gerem a arbitragem no Brasil?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Futebol para quem não gosta de futebol


Rodada de terça da Liga dos Campões da Europa, a segunda da edição 2012-2013 do maior torneio interclubes do planeta. Jogavam Nordsjaelland x Chelsea, Juventus x Shakhtar Donetsk, Valencia x Lille, BATE x Bayern Munchen, Benfica x Barcelona, Spartak x Celtic, Galatasaray x Braga e Cluj x Manchester United. O resultado foram 24 tentos, um verdadeiro prato cheio para os programas esportivos do dia seguinte. Não para o Globo Esporte.  O programa esportivo diário da Globo mostrou apenas os gols de Chelsea x Nordsjaelland e Benfica x Barcelona. Quem viu o resumo das duas partidas feito pelo programa notou bem o foco dos editores. Nordsjaelland x Chelsea focou nos gols brasileiros de Ramires e David Luiz, enquanto no jogo do Barcelona contra o Benfica o foco esteve na queda feia de Puyol - que lhe renderá 2 meses fora dos gramados, pois gerou uma luxação no braço -  e em uma conversa banal entre Fábregas e Messi, que na ‘’dublagem’’ feita pelo programa ficou como um desafio feito por Fábregas a Messi para que o argentino o desse uma assistência a ele após driblar 4 jogadores.

Um pouco depois, o programa gastou quase 4 minutos em uma matéria onde o cantor Ivan Lins e várias pessoas tentavam adivinhar quem cantava uma música em um Ipod. O cantor era o meio-campista do Botafogo Seedorf. Logo depois, a interpretação do holandês foi mostrada aos seus companheiros de clube, que deram seu parecer sobre o desempenho do colega.

É notório o enfoque que o programa dá a fatos inusitados que acontecem nos jogos, assuntos extracampo e todo o tipo de matéria que tem o futebol apenas como ponto de partida. O humor presente e, algumas vezes, predominante nos esportivos da Globo se tornou regra. Exemplo é o próprio GE, que começou essa forma de levar o programa de maneira mais humorística em SP através de Tiago Leifert e logo se espalhou pelas demais praças, os ‘’gols do Fantástico’’, apresentados por Tadeu Schimidt e que mostra o resumo das partidas a partir de lances inusitados que nelas ocorrem, além de quadros como ‘’A câmera do beijo’’ e o semanal Esporte Espetacular, que, entre outras coisas, lançou o famigerado ‘’João Sorrisão’’.


A cúpula da Globo que gere o esporte percebeu o óbvio: o Brasil não é o país do futebol. A maioria da população brasileira não se preocupa com o futebol o quanto faz pensar o senso comum. Há um público-alvo bem segmentado e fiel, mas que não é suficiente quantitativamente para agradar aos índices da audiência. O resultado disso é uma busca cada vez mais desenfreada para agregar aqueles que não veem o futebol como notícia, que não acompanham o desporto a ponto dos fatos por si só o atiçarem a assistir ao programa. Um futebol pra quem não gosta de futebol.


O futebol tramita entre o jornalismo e o entretenimento; não é algo tão sério quanto outros assuntos que também interessam ao jornalismo, o que gera uma maior maleabilidade na forma de conduzir. É dentro dessa maleabilidade que age essa nova forma de se fazer jornalismo esportivo. Tiago Leifert mesmo já disse que para ele o futebol é 100% entretenimento. É errado não vê esse aspecto distrativo e conduzir o jornalismo esportivo de maneira totalmente circunspecta e quadrada, como se faz em outras áreas, entretanto ao abraçar apenas o lado do entretenimento, como faz Leifert e o jornalismo esportivo da Globo,  se abdica da objetividade do ofício jornalístico, deixando de lado o que realmente importa, o desporto, em prol da faceta cômica, já que nem sempre nos fatos esportivos em si reside algo engraçado ou que chame a atenção da maioria.


Vejamos o exemplo do Inacreditável F.C., que ‘’premia’’ com uma camisa do hipotético clube jogadores que percam gols extremamente fáceis. Imaginem um jogador em má fase, em um clube que também não vive os melhores momentos. Será que ele, em meio a toda a turbulência de uma crise de uma equipe de futebol, a cobrança das torcidas e do próprio atacante a si, tem por obrigação ter o bom humor e alheio suficientes para zombar de sua própria desgraça? É desejável que sim, mas é compreensível que não tenha. Portanto, recusar o gracejo é totalmente entendível. Foi como fizeram Deivid, Loco Abreu e Otacílio Neto, mas ao fazê-lo, esses jogadores passaram a ser ‘’perseguidos’’ pelo programa. Deivid teve que recusar várias vezes até ser atendido e nesse meio tempo se viu alvos de chacotas durante as reportagens do programa.




Como a Globo dita tendência, principalmente nas outras emissoras, o que mais se vê é a proliferação dessa conduta. E, como os resultados já se mostraram promissores, tal tendência deve ganhar cada vez mais adeptos. Bom para a audiência, péssimo para o bom jornalismo.